por Emiliana Wenceslau Almeida, coordenadora pedagógica da Escola de Infância
Desde o seu nascimento, o bebê se engaja no desenvolvimento de um relacionamento com o mundo. Esse desejo de experimentá-lo está na busca de atribuir sentido aos outros, às coisas, sobretudo em compreender quem se é. Oportunizar ao bebê experiências que indaguem o que ele faz favorece o desenvolvimento de habilidades que atribuem significados a si próprio e aos acontecimentos que vivencia. À vista disso, em meados de agosto de 2017, como atelierista, propus ao Berçário 2 de uma escola de Campinas um contexto de argila, o qual foi muito bem acolhido pela gestão, educadora referência do grupo e, principalmente, pelos bebês.
Por que argila no berçário? A argila é um material vivo. Ao entrar em contato com a vida em sua diversidade, o bebê tem oportunidade de vivenciar um desenvolvimento pleno, experimentando seu ritmo próprio e os ecos que a matéria lhe evoca: pulsar, reunir e expandir, abrir-se para o mundo. Essa materialidade é composta pelos quatro elementos da natureza: terra, água, ar e fogo (quando queimada). A terra, matéria na qual se constitui, evoca o afeto, está relacionada com a cultura de todos os povos: a argila é parte integrante da história da humanidade.
Emanando experimentação, a argila aguça os sentidos e convida as capacidades sensório-motoras do bebê a vivenciar a transformação, avivando suas mãos “em sua inteligência exploratória, em sua capacidade de repercutir novos ramos de percepção e mergulho na essencialidade das coisas” (PIORSKI, 2016, p.112). Assim, plasticidade, coerência, textura, viscosidade, temperatura, densidade e volume (características inerentes da argila) são experimentados pelo bebê em suas explorações singulares. Dessa forma, ao manusear a argila em suas experimentações, ele vai estabelecendo uma relação de intimidade com as qualidades e possibilidades dela. Isso proporciona a construção de um repertório para a ação criativa (SOARES, 2017, p. 80). Com o contexto de argila, podemos observar como cada bebê vivencia aspectos da sua fase de desenvolvimento ao explorar no espaço do berçário um elemento da natureza.
A
seguir, breves narrativas de três bebês que protagonizaram ações
nesse contexto:
RITA
Rita
encontra cubos de argila. Sua primeira ação é pegar dois deles
para si, e inicia movimentos de tirar nacos. Observa um terceiro cubo
do seu lado, cava-o com o indicador esquerdo e então apreende para
examinar com maior proximidade. Ela segue tirando nacos dos cubos:
cava, belisca e corta a matéria. Rita experimenta a transformação
da matéria. Percebe algumas possibilidades da argila e os seus
limites; reciprocamente, vivencia as possibilidades e limitações
das suas mãos, dos seus dedos e da coordenação motora nessa fase
de sua vida. Investiga a materialidade na medida em que investiga a
si própria.
MARINA
Marina senta-se à mesa de modelagem de argila e depara-se com um bloco que sofreu intervenção anteriormente. Examina atentamente o bloco maior, os sutis gestos são acompanhados de balbucios. Tateia os relevos criados com a retirada do pedaço menor, seu dedo indicador direito vai conduzindo um percurso deixado pelos dedo de quem fez a retirada. Marina vai encaixando seu dedo nas depressões abertas pelos dedos maiores e observa. Então, volta-se ao pedaço menor e, balbuciando, investiga a porção menor, tateando agora com todos os dedos.
Marina recebe uma
forma cilíndrica modelada com a argila. Imediatamente a coloca de
pé. A forma cai ao perder o suporte da sua mão, então ela tenta
outra vez e a forma cai para um lado e para outro. Ofereço outra
forma com base maior e de espessura mais grossa, ela agarra a forma e
a estaca na mesa. Ao ver que a modelagem correspondeu a ação
imprimida, Marina se contenta e demonstra alegria pelo seu feito.
Suas ações posteriores são acompanhadas de sorrisos, ela parece
satisfazer-se e divertir-se com o que produz. Aprofunda sua pesquisa
sobrepondo verticalmente pedaços de argila. Do estacar, Marina passa
a construir uma coluna. Cada pedaço colocado é seguido de pausa e
contemplação.
JOÃO MARCELO
João Marcelo encontra com o bloco de argila e imprime os dedos das duas mãos, arranhando a superfície. A matéria cede ao seu movimento e uma quantidade bem pequena de argila é retirada da porção maior. Ele observa esse pequeno pedaço que cai na lateral do bloco e, na repetição do gesto de arranhar, João Marcelo lança o pequeno pedaço com seu dedo indicador. Caída no chão, a pequena porção de argila é motivo de João Marcelo chamar Martin; ele o faz olhando para o amigo e apontando para o pequeno pedaço.
João Marcelo pega
o bloco e o coloca no chão, mostrando para Martin o buraco feito no
bloco. Martin pega o pequeno pedaço observa e, novamente, João
Marcelo aponta o buraco de onde originou a porção menor.
Gestualmente, João
Marcelo comunicou sua descoberta ao Martin, compartilhando sua
observação sobre a materialidade da argila, a coerência que esta
matéria mantém à ação imprimida.
CONCLUSÃO
O desenvolvimento dessa proposta no berçário se deu para que pudéssemos expandir o contato dos bebês com elementos da natureza, convidando-os a experimentar qualidades táteis diferentes daquelas presentes no cotidiano escolar. Os acontecimentos que se deram nesse contexto (ao longo de 12 meses) nos fazem constatar a potência da argila como um material que possibilita ao bebê investigar a matéria, sua corporeidade e, também, fomentar a iniciativa própria, a autonomia e a comunicação entre os pares.Ao possibilitar as mais diversas atitudes, a argila
oportuniza aos bebês ações que produzem complexos efeitos, como
noções de espaço, tempo, distância, profundidade, entre outros, e
os desafiam a continuar suas explorações em um segundo momento.
Dessa forma, o bebê conhece os limites de seu poder sobre o mundo e
aprende a buscar estratégias para superar as dificuldades. Vivenciando possibilidades de escolha e decisão, desenvolve sua
identidade, autoestima e autoconfiança pela satisfação de realizar
o que é capaz nesse momento de sua vida (FALK, 2016).
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
FALK,
Judit. Abordagem Pikler, educação infantil. Judit Falk
(organizadora). Tradução de Guillermo Ordaz. São Paulo:
Omnisciencia, 2016.
PIORSKI, Gandhy. Brinquedos do chão: a natureza, o imaginário e o brincar. São Paulo: Peirópolis, 2016.
SOARES, Suzana Macedo. Vínculo, movimento e autonomia: educação até 3 anos. São Paulo: Omnisciencia, 2017.
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